Museu bibliográfico:  

Volume 1:  Capítulo 1:  Mesopotâmia 

1o  O épico de Gilgamesh 


O que é?  É um poema épico,  quer dizer,  um poema narrativo longo,  no qual o personagem

principal é Gilgamesh, um lendário rei da cidade de Uruk,  na Suméria,  onde hoje é o Iraque.  Gilgamesh (c.2800 a 2500 a.C),

segundo uma antiquíssima lista de reis sumerianos, teria reinado no período pós-diluviano e um dos personagens

da narrativa, chamado Utnapistim, é semelhante ao Noé do Livro do Gênesis da Bíblia.  Pois também ele é chamado

a construir um grande navio ou arca para proteger seres humanos e animais de um grande dilúvio.   A semelhança

das duas narrativas torna esse poema importante para o conhecimento da realidade temporal da narrativa bíblica.  

Consistia originalmente de vários poemas escritos em tábuas e numa forma de escrita inventada pelos sumérios

chamada cuneiforme (em forma de cunha) e em idioma sumério (cerca de 2100 a.C), depois unidos para formar

um todo em idioma acádio (século 18 ou 17 a.C) e novamente compilados por volta de 1200 a.C por um homem

chamado Sin-lequi-unninni,  também em idioma acádio.  É nesse idioma que foi escrito o texto do fragmento

colocado mais abaixo.        


    Como a obra chegou até nós?  


Sabemos que a obra foi transmitida dos acádios para os assírios porque pertencia ao acervo da Biblioteca do rei

Assurbanipal.  Essa Biblioteca ficava na antiga cidade de Nínive,  capital da Assíria, e foi encontrada em um sítio

arqueológico dentro da cidade de Mosul,  capital da província de Nínive,  no norte do Iraque.   Consistia numa

coleção enorme de tábuas com textos escritos em escrita cuneiforme,  algumas em acádio,  outras em sumério, 

e que foram encontradas durante escavações realizadas a partir do século 19.  Entre os responsáveis pela descoberta

dessa Biblioteca e,  consequentemente,  das tábuas que contém o Épico de Gilgamesh,  estão um nobre inglês, 

Sir Austen Henry Layard (1817-1894); que era assiriólogo,  e o arqueólogo e assiriólogo de etnia assíria nascido

em Mosul; então parte do extinto Império Turco-Otomano, Hormuzd Rassam (1826–1910).   


Era necessário a decifração do cuneiforme acadiano e do cuneiforme sumério para conhecer

o conteúdo das tábuas.   Nessa época ainda estava em andamento a decifração da correspondência

entre os sinais da escrita cuneiforme e as letras do alfabeto latino.  Um dos pioneiros nessa área foi

o filólogo alemão Georg Friedrich Grotefend (1775-1853),  que tinha atrás de si os trabalhos do

alemão estudioso do hebraico e cristão luterano Olaus Gerhard Tychsen (1734-1815), 

do orientalista Carsten Niebuhr (1733-1815),  do arqueólogo francês (e clérigo da Igreja Católica)

Jean-Jacques Barthélemy (1716-1795),  do orientalista italiano Pietro della Valle (1586-1652)

e do orientalista espanhol Don García de Silva Y Figueroa (1550-1624).  Este último viajou para

a Pérsia e descobriu inscrições do tempo de reis persas da dinastia aquemênida, que já eram conhecidas

dos estudiosos persas e árabes há bastante tempo.  Além desses também participaram desse esforço o

orientalista inglês Sir Henry Rawlinson (1810-1895),  o bispo e assiriólogo irlandês Edward Hincks (1792-1866), 

o assiriólogo franco-alemão de origem judia Jules Oppert (1825-1905), o orientalista inglês William Henry Fox

Talbot (1800-1877) e outros.   Conseguiram eles encontrar uma forma razoável de decifrar as inscrições

situadas nos territórios da antiga cidade de Persépolis e de Behistun.   Essa decifração,   que concluiu que

são inscrições mandadas serem gravadas por reis persas da dinastia aquemênida, até hoje é aceita como

satisfatória pela comunidade científica.  


Havia uma inscrição em aramaico datada da época do rei persa Dario II que era uma cópia da

inscrição de Behistun.   Nesse idioma estão escritas algumas poucas passagens do Antigo e

do Novo Testamento da Bíblia.   Os estudos bíblicos colaboraram assim para a decifração

da inscrição e o conhecimento do cuneiforme persa.  Para o conhecimento do conteúdo

das tábuas encontradas em Nínive era necessário,  porém,  conhecer o cuneiforme acadiano

e o cuneiforme sumério.   O sumério foi conhecido a partir do acadiano,  esse a partir do

babilônio que era uma variação do acadiano, e o babilônio a partir do elamita.  

Tendo já conhecimento de como ler as tábuas escritas em acadiano e sumério,

os orientalistas puderam decifrar o épico de Gilgamesh e fazer as primeiras

traduções para o inglês.  Depois foram feitas traduções para outros idiomas modernos. 

Algumas delas para o português. 


A obra é hoje ainda fonte de debate.  Debatem-se os orientalistas a respeito da relação dessa obra

com a narrativa bíblica do Dilúvio.  Pois ambas dizem que um grande dilúvio aconteceu.  

São acontecimentos diferentes ou é o mesmo acontecimento contado de modo diverso? 

Não sabemos.  


A foto acima mostra a 5a tábua do

Épico de Gilgamesh em sua tradução

para o idioma acadiano encontrada 

na Biblioteca do rei assírio Assurbanipal

no sítio arqueológico correspondente a antiga 

cidade de Nínive,  no norte do Iraque.  O fragmento foi

datado por filólogos orientalistas como tendo sido escrito numa faixa de tempo situada entre 2003 e 1595 a.C.     

Veja mais desse Museu Bibliográfico em:  https://docs.google.com/document/d/1KxN0mMnA6RTGEWxDG0y-6Eefjxh9-F8o9YtTE1RsNY8/edit?tab=t.0 .   


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